A missa, a Divina Liturgia, é essencialmente um sacrifício, como o proclama um dos nomes que lhe é frequentemente dado: o Santo Sacrifício. Não é um simples sacrifício de louvor, nem a comemoração de um sacrifício de outrora. Memorial de um sacrifício violento e sangrento, o do Gólgota, ela é ela mesma um sacrifício, dotado de uma virtude de reconciliação e propiciação.
A missa tem uma dimensão maior e engloba outras realidades sobrenaturais que este sacrifício sangrento; assim como a noção de sacrifício possui uma acepção mais vasta que a de imolação sangrenta de uma vítima. No entanto a noção de imolação é capital tanto na teologia da Redenção como na missa que dele é um ritual perpétuo. É deste este núcleo sacrificial de onde se deve partir para compreender a celebração eucarística.
O Sacrifício do Cristo, como toda sua missão, realiza-se em continuidade da tradição judaica do Antigo Testamento. Portanto é preciso se abordar primeiro as diferentes formas de sacrifícios da Antiga Lei, o que nos levará a constatação que a Cruz do Cristo recapitula, transcendendo-os, os sacrifícios precedentes e deles recebe certa explicação.
O sacrifícios dos Hebreus são variados em espécies. Fora a oferenda do incenso, que constituía um sacrifício havia um sacrifício não sangrento denominado minha, “oblação”, uma espécie de oferenda das primícias da terra. A forma mais conhecida da minha era o rito dos pães de proposição — lehem panim — em número de doze (tribos de Israel); eles eram depositados no Templo sobre uma mesa de ouro, sobre cada um destes pães queimava-se incenso; os pães eram renovados cada sabá, e os pães retirados eram comidos pelos sacerdotes.
Entre os sacrifícios sangrentos, o mais importante era o holocausto (em grego quer dizer "inteiramente queimado"; originário do hebraico olah): a vítima geralmente um touro ou bezerro sofria uma sangria e em seguida era inteiramente consumado pelo fogo, ou seja inteiramente consagrada e oferta a Deus. O termo olah vem do hebraico alah que quer dizer subir, ascender, como alusão à fumaça subindo aos céu, simbolicamente à morada celeste de Deus. O sangue da vítima era aspergido aos quatro cantos do altar. Este rito tinha uma grande significação: o sangue, com efeito, está em relação com a essência transcendente do homem, que habita no coração.
O zebah shemalim, "sacrifício de paz", era praticado em grandes solenidades para comunhão com Deus.
O sacrifício hattat era um rito de purificação e de expiação pelo pecado; ligado à cerimônia anual da Festa da Expiação ou do Grande Perdão (yom kippour), que tinha por objetivo purificar os sacerdotes e todo o povo dos pecados do ano. Esta Festa da Expiação é importante para se compreender o sentido e a amplitude do sacrifício do Cristo. Este último integra todos os ritos sacrificiais anteriores. Paulo Apostolo compara Cristo ao grande sacerdote da Festa da Expiação, que penetra uma vez por ano nos Santo dos Santos portando (v. Heb 9:1-14).
Esta aproximação feita por Paulo Apostolo vale para as outras formas do sacrifício hebraico. Para o holocausto é evidente: o sacrifício do Cristo é o holocausto absoluto; as oferendas das primícias e o zebah shelamim já esboçam o esquema da missa. O sacrifício da Páscoa, sacrifício do Cordeiro pascal e a ceia que o segue que devem reter nossa atenção, pois é aquele sacrifício que o Cristo escolheu para fazer, depois de tê-lo transformado, o sacrifício do Novo Testamento.
A Páscoa judaica pertence a este tipo de sacrifício onde a vítima animal oferecida é inteiramente comida pelos homens em nome da divindade. É um sacrifício de comunhão, como o Zebah shelamim. Este rito comemorava a libração da escravidão no Egito e a entrada na Terra Prometida. A Páscoa cujo nome hebraico pesah significa “passagem”, a passagem do exílio à Terra Prometida, era o símbolo que o Cristo “vitalizou” de algum modo para dele fazer o signo eficaz da passagem da morte à vida, das trevas à luz; de modo que pelo Divino Cordeiro imolado, somos transferidos ao Reino do Pai.